PARTE I — OS NASCIDOS NA FLORESTA
Capítulo 1 — A Criança Amazônida
Iara
Antes de saber o nome da floresta onde nasceu, Iara já sabia reconhecer a chuva.
Sabia pelo cheiro.
Pouco antes das primeiras gotas, o ar mudava. O calor permanecia entre as árvores, mas a terra adquiria um cheiro mais forte. As folhas altas se agitavam antes que o vento alcançasse a casa. Depois vinha um ruído distante sobre as copas.
Parecia um rio descendo do céu.
Iara tinha sete anos e morava com a família numa palafita de madeira, à beira de um igarapé próximo a Manaus. Quando as águas subiam, a casa parecia flutuar. Quando baixavam, as estacas reapareciam com marcas escuras, folhas presas e fios de capim.
O avô dizia que aquelas marcas eram a escrita do rio.
Iara não entendia como a água podia escrever sem lápis. Mesmo assim, gostava da ideia.
Naquela manhã, brincava junto à margem com uma pequena canoa feita de casca de árvore. O avô cortara a casca com um canivete antigo e colocara uma folha seca no lugar da vela.
A menina escolhera o nome: Esperança.
O avô rira. Dissera que era um nome grande demais para uma canoa tão pequena.
Iara respondera que, nesse caso, a canoa precisaria aprender a crescer.
Esperança avançou entre folhas e gravetos. A brincadeira tinha uma regra: alcançar uma árvore inclinada alguns metros adiante sem virar.
A canoinha girou, escapou de uma folha e parou.
Iara esperou. Nada.
Pegou um galho comprido para empurrá-la de volta à correnteza. Foi então que percebeu que o brinquedo não estava preso numa raiz.
Tinha encalhado na areia.
Uma faixa clara aparecia entre a água e a vegetação. Ocupava exatamente o lugar onde Iara costumava soltar Esperança. Dali, a correnteza levava o brinquedo até a árvore inclinada sem que ela precisasse ajudar.
Naquela manhã, o caminho estava mais longe.
Iara conhecia a margem desde que aprendera a andar. Sabia onde o barro era fundo, onde os peixes pequenos se escondiam e qual raiz servia de degrau para entrar na canoa. Aquela areia, porém, não fazia parte de suas lembranças.
Recuperou o brinquedo e correu até a casa.
O avô estava na varanda, consertando uma rede. Usava um chapéu de palha gasto e os óculos que só colocava para dar nós pequenos.
— Se quebrar a escada, você mesma vai consertar.
— A água saiu do caminho da Esperança.
Ele levantou os olhos.
— A água não saiu do caminho. O caminho é que mudou.
— Sem me avisar?
— O rio raramente manda recado.
— Então por que o senhor diz que sabe lê-lo?
O avô deixou a rede sobre a cadeira.
— Venha.
Desceu os degraus devagar, reclamando da perna. Iara sabia que aquela dor aparecia quando ele queria atenção e desaparecia quando precisava empurrar uma canoa.
Pararam diante de uma árvore grossa. O avô apontou para uma linha escura no tronco.
— Está vendo?
— Uma mancha?
— Uma marca da água.
Iara passou os dedos sobre a linha, bem acima de sua cabeça.
— A água chegou até aqui?
— Na última cheia.
Ela comparou a marca com o igarapé.
— E depois desceu tudo isso?
— Desceu.
Havia o rio que ela via e outro guardado nas árvores, nas estacas da casa e nas lembranças do avô.
— Como você sabe quando ele vai subir?
— Nem sempre sei.
A resposta a surpreendeu. O avô parecia conhecer todos os caminhos daquele lugar.
— Mas você diz que sabe ler o rio.
— Saber ler não significa conhecer o final da história.
— Quem ensinou você?
— Meu pai.
— E quem ensinou a ele?
— O pai dele.
— E antes?
— Antes havia outro pai, suponho.
Iara riu.
— Você não sabe?
— Já lhe disse que não sei tudo.
— Mas finge muito bem.
Sentaram-se sobre uma raiz larga. Dali viam a areia, pequenas pegadas de pássaros e a correnteza passando mais longe da vegetação.
— Quando eu tinha sua idade, meu pai me trazia até esta árvore — disse o avô. — Olhava as marcas, a cor da água e o vento. Prestava atenção nos pássaros e nos peixes.
— Para quê?
— Para decidir quando viajar, quando pescar e quando esperar.
— Só olhando?
— Olhar é mais difícil do que parece.
Durante gerações, famílias que viviam junto às águas haviam observado aqueles sinais. A cheia e a vazante alteravam caminhos, pesca, plantio, viagens e a rotina das casas. Parte do conhecimento passava por palavras. Outra parte, por gestos.
Na Amazônia, a memória costuma viajar pelas águas.
Ao longe, nuvens se juntavam sobre as árvores. O ar mudou. O cheiro da terra ficou mais forte.
— Vai chover — disse ela.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Como sabe?
Iara sorriu.
— Aprendi a ler.
A primeira gota caiu sobre a vela de folha. Depois outra.
Na escola, Iara vira um mapa do Brasil. O professor apontara uma grande região verde no norte do país e dissera que ali estava a Amazônia. Ela se surpreendera ao descobrir que pessoas distantes conheciam o nome de sua casa.
— Vô, o mapa mostra onde começa a Amazônia?
— Mostra.
— E onde termina?
— Também.
— Então por que o senhor pensa tanto quando fala dela?
— Talvez o mapa saiba mais do que eu.
— O mapa não conhece esta árvore.
O velho sorriu.
— Isso é verdade.
Pessoas diferentes enxergavam a Amazônia de maneiras diferentes. Um cientista veria uma coisa. Um agricultor, outra. Um jornalista talvez encontrasse uma história que nenhum dos dois percebera.
Todos usariam a mesma palavra. Nem todos estariam falando da mesma Amazônia.
— Então o que é a Amazônia?
O avô abriu a boca, mas não respondeu de imediato.
A pergunta era curta. Todas as palavras eram conhecidas. Ainda assim, ele a recebeu como se a neta tivesse colocado alguma coisa pesada em suas mãos.
— Para algumas pessoas, é floresta. Para outras, água. Para outras, terra.
— E para você?
— Para mim, é casa.
— Só isso?
— Desde quando casa é pouco?
Iara segurou a canoinha junto ao peito e correu para a varanda. Atrás dela, a chuva apagou as pequenas pegadas na areia.
A pergunta, não.
O que é a Amazônia?
NOTA DOCUMENTAL — A imagem do rio como parente próximo, e não como recurso à parte, aparece no ensaio de Ailton Krenak Ideias para adiar o fim do mundo (2019).
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