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Parte I — Origem

Capítulo 1 — Primeira geração universitária: quando o sonho encontrou a universidade

"Não há mudança sem sonho, como não há sonho sem esperança."

— Paulo Freire, Pedagogia da esperança

Na história de algumas famílias, há acontecimentos que marcam uma virada de geração. Eles não mudam apenas a vida de uma pessoa: abrem possibilidades para todos os que vêm depois. Minha entrada no ensino superior foi um desses momentos.

Quando soube que tinha sido aprovado no curso de Ciências Biológicas da Universidade Camilo Castelo Branco (Unicastelo), em São Paulo, custei a acreditar. Procurei meu nome na lista mais de uma vez. Senti alegria, surpresa e um peso novo de responsabilidade. Eu não estava conquistando só uma vaga; estava atravessando uma fronteira que, até ali, parecia distante da realidade da minha família.

Eu me tornava a primeira geração universitária da família.

Um sonho coletivo

Cresci num ambiente em que a educação era valorizada, mas a sobrevivência quase sempre vinha primeiro. O trabalho era prioridade, e as famílias lutavam todos os dias para garantir uma vida digna. A universidade era vista como algo importante e, ao mesmo tempo, distante. Pouca gente ao nosso redor tinha diploma, e quase não circulavam informações sobre vestibulares, cursos e profissões.

Meus pais não tiveram a oportunidade de estudar numa universidade. Mas me deram algo ainda mais valioso: a convicção de que a educação podia abrir caminhos que eles mesmos não puderam percorrer. A aprovação foi a realização desse sonho, que nunca foi só meu.

Um mundo novo e seus códigos

Os corredores, os laboratórios, a biblioteca, os professores especialistas, o ritmo da vida acadêmica: tudo era novo. A Biologia me encantava. Sempre fui fascinado pela vida, pela natureza e pelos processos que explicam como funcionam os organismos e os ecossistemas, e cada disciplina ampliava minha compreensão sobre o ser humano e sua relação com o ambiente.

Com o entusiasmo, porém, vieram os desafios. Logo percebi que muitos colegas tinham trajetórias diferentes da minha. Alguns vinham de escolas com mais recursos; outros tinham pais ou parentes formados, que conheciam as exigências da vida universitária. Pareciam dominar com naturalidade códigos que, para mim, eram completamente estranhos.

Eu precisava aprender tudo isso enquanto caminhava. Talvez por isso tenha desenvolvido uma característica que me acompanha até hoje: a persistência. Aprendi a estudar com mais intensidade, a pedir ajuda quando precisava e a entender que a formação universitária se constrói tanto com conhecimento técnico quanto com disciplina e capacidade de superar dificuldades.

Os debates, as aulas práticas, os estudos científicos e a convivência com colegas de realidades tão diferentes foram moldando, aos poucos, uma identidade profissional. Hoje reconheço que a universidade me ensinou muito mais do que Biologia. Ensinou que a origem social não precisa determinar o destino de alguém.

O que os autores me ajudaram a entender

Anos depois, encontrei em Paulo Freire palavras para o que eu tinha vivido. Freire defendia a educação como prática da esperança e da transformação, e via nos sonhos uma força capaz de ampliar as possibilidades humanas e sociais.

Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, em Os herdeiros, mostram como estudantes de famílias sem tradição universitária enfrentam mais obstáculos para entrar e permanecer no ensino superior, por causa das desigualdades culturais acumuladas ao longo de gerações. Ao ler esse livro, reconheci na prática o que Bourdieu chamava de herança cultural. Alguns colegas chegavam com referências e seguranças construídas em casa; outros, como eu, precisavam construir esse repertório no meio do percurso. Ainda assim, a universidade me mostrou que essas barreiras podiam ser superadas com dedicação e persistência.

Bernard Charlot me ajudou a entender a dimensão pessoal dessa experiência. Para ele, cada estudante estabelece uma relação singular com o saber: aprender não é só acumular informação, mas dar sentido ao conhecimento a partir da própria história, dos sonhos e dos projetos de vida. No meu caso, cursar Biologia significava muito mais do que obter um diploma. Era a chance de transformar minha realidade e de construir uma vida profissional a partir do conhecimento.

O que levei para a sala de aula

Com o passar dos anos, como professor, coordenador e gestor, passei a olhar meus alunos de outra forma. Sempre que encontro um estudante inseguro, que duvida da própria capacidade ou acha que seus sonhos são grandes demais para a sua realidade, lembro daquele jovem que chegou à Unicastelo com mais dúvidas do que certezas.

Lembro que ninguém nasce pronto para a universidade. Que o conhecimento se constrói. Que muitos talentos continuam invisíveis até que alguém ofereça uma oportunidade. Talvez por isso eu tenha aprendido a nunca subestimar um estudante.

Toda grande trajetória educacional começa com uma decisão aparentemente simples: continuar avançando, apesar das dificuldades. Quando uma pessoa chega ao ensino superior, a conquista ultrapassa a sua própria vida. Torna-se patrimônio simbólico da família, inspiração para os mais novos e prova de que os sonhos podem ir além das circunstâncias de origem.

Olhando para trás, vejo que a aprovação em Biologia não foi apenas o início de uma graduação. Foi o início de uma transformação. Foi ali que o sonho encontrou a esperança e, juntos, abriram as portas da universidade.

Com esperança, de um professor que foi o primeiro da família a atravessar a porta da universidade.

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